Quando comecei a ler Dona Flor e seus dois maridos, de Jorge Amado, para o Clube de Literatura Erótica, e me deparei com a relação da protagonista e seu primeiro marido, Vadinho, tive uma forte sensação de que aquele romance talvez pudesse me ajudar a contribuir com meus poucos centavos para a discussão sobre heteropessimismo.
Sobre heteropessimismo
Heteropessimism consists of performative disaffiliations with heterosexuality, usually expressed in the form of regret, embarrassment, or hopelessness about straight experience. Heteropessimism generally has a heavy focus on men as the root of the problem. Asa Seresin
Ano passado, autoras que acompanho em newsletters, como a Isadora Sinay e a Taize Odelli, me apresentaram ao termo. E, para quem ainda não se deparou com ele, uma definição de heteropessimismo está justamente na citação de Asa Seresin que abre essa postagem: é uma desvinculação performativa em relação à heterossexualidade, expressando arrependimento e constrangimento em se definir como hétero. Se ainda parece um pouco difícil de entender, os exemplos ajudam bastante: “Deus me livre gostar de homem”, “As mulheres hétero são as verdadeiras vítimas” são alguns dos memes utilizados nas performances a que Asa se referiu.
Por muito tempo, achei memes como esses engraçados e inofensivos. E, bom, não venho aqui defender o contrário. Podem continuar inofensivos e, ainda assim, ser sintomas de um sentimento que se desdobra em movimentos sociais aqui e ali. O melhor exemplo é o movimento feminista coreano 4B – de mulheres que estão abdicando de sexo, namoro, casamento e bebês em resposta à misoginia que enfrentam.
A ideia de uma mulher abdicar de qualquer expressão sexual não é exatamente chocante para ninguém. O celibato ainda existe como prática religiosa e, mesmo além dos conventos, convenhamos que a nossa sociedade não vê mulheres como organismos cheios de hormônios, que não contêm seus desejos. No mais, as chances de todas as mulheres heterossexuais do mundo optarem por não se relacionar mais com homens são mínimas. No entanto, ainda vejo o heteropessimismo como um obstáculo para nossas discussões sobre imaginação erótica.
Quando mulheres heterossexuais esclarecidas, feministas e independentes passam a compartilhar cada vez mais relatos públicos de que não querem mais se relacionar com homens, o patriarcado e a heteronormatividade seguem intactos. Mulheres são mais uma vez castradas, desta vez, não em nome da moral e do recato, mas da produtividade, do sucesso profissional e da proteção física e emocional contra uma masculinidade heteronormativa.
O desenvolvimento de uma personagem em torno do prazer
Com esses pensamentos, cheguei em Dona Flor com a expectativa de que a recatada dona de casa baiana pudesse me dar um argumento a favor da imaginação erótica feminina. Afinal, quem mais indicada para a tarefa do que uma mulher que encarou dois casamentos?
Para meu desgosto, a primeira metade do livro é praticamente toda dedicada a Vadinho, o boy lixo de Dona Flor. Viciado em jogo, preguiçoso, displicente, infiel e, às vezes, até agressivo, Vadinho, sozinho, justificaria o heteropessimismo. Mas, no sofrimento de Flor pela morte da peste encarnada, comecei a enxergar outras possibilidades.
No luto, acompanhamos o corpo de Flor queimar de abstinência. A personagem sofre pela partida do marido, mas também está de luto pela sua vida sexual. Para surpresa de vizinhos e amigos, a morte de Vadinho não é um alívio na vida de Flor. O dinheiro rende mais sem o marido explorador, mas há uma parte inteira da vida dela enterrada com o defunto. Jorge Amado relata com paciência a histeria crescente da personagem.

A vida sexual de Flor parece enterrada pelas circunstâncias da época: mulher honesta se deitava apenas com o marido. Para resolver, era preciso casar-se novamente. O casamento com Teodoro é, então, uma possibilidade de restabelecer o sexo em seu lugar sagrado.
Doutor Teodoro, porém, é um aliado muito fraco no combate ao heteropessimismo. Marido exemplar, provedor e respeitador, o farmacêutico é símbolo da moral. Sua lua de mel com Flor é uma das cenas mais dolorosas do livro, na qual percebemos os descompassos entre desejo e norma. Nesta noite, nossa heroína descobre que precisaria correr o risco de falar o que deseja e até mesmo tomar a frente da relação, mas teme que isso afete sua reputação.
Neste casamento morno, Flor se vê dividida novamente. Dessa vez, entretanto, a divisão assume a forma de Vadinho, que retorna como assombração. Somos levados a acreditar que uma escolha precisa ser feita. Ou Flor segue seu desejo e é capturada pela assombração, ou permanece com o bom marido que não a satisfaz.
Vadinho como assombração, para mim, era um recurso de Jorge Amado para construir uma personagem recatada, dividindo a cama com dois homens em uma época em que isso seria inadmissível. Mas, no fim das contas, assombração é apenas um passo para imaginação. Nossa heroína, afinal, não termina com dois homens: um deles é matéria, mas o outro é imaginação erótica. O que ela escolhe é o seu desejo. A possibilidade de ter um casamento exemplar e ainda assim se realizar na cama.
Mesmo no seu recato e conservadorismo, Dona Flor nos fala, direto da década de 1960, da necessidade do desejo sexual. Ela encontra caminhos para superar as divisões e nos convida a também invocar assombrações-imaginações.