POR SEANE MELO

Tudo sobre literatura erótica

Compreenda o que é literatura erótica e pornográfica, suas características e história, antes de mergulhar nos melhores livros eróticos já escritos

Decidi criar esse artigo pensando nos leitores que tem interesse por literatura erótica e também em escritores iniciantes que estejam se perguntando como escrever um livro erótico. Acredito que tanto para mergulhar na leitura quanto na escrita vale a pena compreender a produção erótica a partir da modernidade.

Assim, vamos repassar alguns aspectos-chave para entender esse gênero, como:

O que é erotismo? Qual a diferença entre erótico e pornográfico?

Para entender o que é erotismo é preciso primeiro entender a complexidade de outra pergunta: o que é pornografia? Quais são seus limites e a quem cabe defini-los?

A palavra pornografia é um neologismo originário na França, no fim do séc. XVIII, mesclando as palavras gregas pornè (puta) e graphia (escrito ou pintura). A palavra, então, significaria algo como “escritos sobre prostitutas”, revelando, desde a sua origem, sua proximidade com a literatura erótica.

Para o antropólogo francês-canadense, Bernard Arcand, a pornografia tem que ser investigada como um fenômeno social: “é pornográfico o que uma sociedade declara como tal”. O que, mais uma vez, não é uma tarefa simples nas sociedades modernas, cheias de grupos heterogêneos com percepções distintas.

O senso comum tende a rotular a pornografia como sendo a parte “suja” do erotismo. O erotismo carregaria a ideia de sensorialidade, de arte, de beleza, enquanto a pornografia representaria e faria o trabalho que o erotismo não faz.

Mas, na literatura erótica, essa distinção não costuma funcionar assim. Como explica o pesquisador brasileiro Ronnie Cardoso, o erotismo é o conceito que vai potencializar o valor literário da pornografia.

“[…] devemos pensar a pornografia como um conceito dinâmico que articula todas as possibilidades da representação, que põe em cena o ato sexual quando este se apresenta explicitamente ou, ainda que implícito, subtendido, mas que esteja em confronto com a moral vigente, com os interditos sociais e com o bom tom da linguagem oficial. Nessa perspectiva, o obsceno, o licencioso e o exercício lúbrico — este mais diretamente associado com o efeito de excitação sexual — são os mecanismos que fazem parte do sistema poético do qual a pornografia faz uso taticamente”.

Quais as características da literatura erótica?

Apesar de ser um desafio definir erotismo e pornografia, alguns teóricos buscaram instrumentalizar uma teoria para o estudo da literatura erótica ou pornográfica.

O linguista francês Dominique Maingueneau defende que são necessárias duas condições mínimas para que possamos falar da escrita pornográfica:

  1. O texto deve pôr em cena o ato sexual, isto é, o leitor deve conseguir visualizar a série de ações operadas pelos personagens.
  2. A enunciação deve ser carregada de afetos eufóricos atribuídos a um ou mais personagens.

O linguista explica que nem sempre as duas condições são cumpridas, mas é o equilíbrio entre elas (exposição e afetos) que constitui a norma e que deve ser buscado por uma sequência pornográfica.

“Trata-se também de uma linguagem que, à imagem daquilo que ela mostra, dá-se como desnudada, sem artifício enganador, que vai ao essencial”. Dominique Maingueneau (O discurso pornográfico)

Susan Sontag, em um ensaio sobre A imaginação pornográfica, também elenca algumas características dessa literatura:

  1. os livros de pornografia se dirigem ao leitor, propondo-se a excitá-lo sexualmente;
  2. nas obras de pornografia falta a forma de começo-meio-e-fim característica da literatura. A pornografia normalmente não é feita de arcos narrativos e não leva a lugar nenhum;
  3. a linguagem desempenha um papel secundário no pornográfico, uma vez que o propósito da pornografia é inspirar uma série de fantasias não-verbais;
  4. a escrita pornográfica não é tão focada nos personagens e mais motivada pelas ações.

Apesar de comumente atribuídas à literatura erótica/pornográfica, Susan Sontag defende que essas características não resistem a uma análise mais cuidadosa dos clássicos do gênero.

“O que faz de uma obra de pornografia parte da história da arte […] é a originalidade, a integridade, a autenticidade e o poder dessa própria consciência insana, enquanto corporificada em uma obra”. Susan Sontag (Trad. Dolina Bush & Madame Fire Wasp)

História da literatura erótica

Imagem de duas páginas do livro Sonetos Luxuriosos em italiano, um dos clássicos da literatura erótica
Página de “Sonetti Lussuriosi” de Pietro Aretino, ilustrada por Giulio Romano e gravada por Marcantonio Raimondi, publicada em Veneza, c.1527

Quais as origens da literatura erótica moderna?

Pensar as origens da literatura erótica é desafiador. Sabe-se que desde a Antiguidade são produzidos versos e pinturas pornográficos, o que torna difícil determinar qual foi a obra original.

No entanto, os historiadores concordam em reconhecer a contribuição do escritor italiano Pietro Aretino para o gênero (Ver Paula Findlen em A invenção da pornografia). Aretino foi o mais famoso autor pornográfico do Renascimento e é considerado o pai da pornografia moderna.

Apesar do eurocentrismo destas análises, conhecer o contexto de produção de Aretino no séc. XVI, de fato, abre caminhos para refletirmos sobre os clássicos da literatura erótica.

Quando o Humanismo retomou a influência da “Antiguidade”, trouxe com ele também uma nova forma de paganismo e tencionou a moralidade cristã. Clássicos, como Ovídio, serviram de referência para os escritores pornográficos renascentistas, que, apesar disso, se opunham às restrições estilísticas dos humanistas.

Pode-se dizer que o Renascimento favoreceu o surgimento da pornografia na Europa ocidental, seja pelo florescimento da cultura manuscrita, pela difusão da alfabetização e pela circulação das palavras e imagens facilitada pela impressão; seja pelas próprias hierarquias sociais e pela cultura política que constituía a Itália renascentista.

Em relação a essa última parte, é importante destacar o papel da personagem “prostituta” como um “terceiro sexo”, que possuía a capacidade de observar a sociedade desapaixonadamente. A obra mais famosa de Aretino, Diálogo das prostitutas, é um retrato disso. Em uma conversa com uma amiga, uma prostituta reflete sobre o futuro da filha. Em três partes, ela investiga as possibilidades da mulher: ser freira, esposa ou puta. Em meio à construção de um imaginário sexual, há também críticas severas às práticas sociais e à cultura política.

“Fortemente anticlerical, como a maior parte da pornografia moderna inicial, a obra de Aretino retratou vivamente um mundo em que os cortesãos eram prostitutas, as prostitutas eram cortesãos e o clero era sodomita.” (Paula Findlen em A invenção da pornografia)

A obra de Aretino, portanto, serve para embasar uma definição de literatura erótica e pornográfica que se baseia no confronto à moral vigente, no desafio dos interditos sociais e no jogo com a linguagem.

As experiências do erotismo francês e inglês

Literatura erótica política: A rainha Maria Antonieta era uma das principais personagens das ilustrações eróticas

Na França, a literatura erótica tem relação direta com a Revolução Francesa. Mesmo que os principais consumidores da pornografia fossem os libertinos aristocráticos — aos quais os revolucionários se opunham —alguns dos principais pornógrafos do país participaram diretamente da Revolução: como o Marquês de Sade.

Quando a Revolução eclodiu, em 1789, a pornografia se proliferou como uma das novas práticas políticas populares. A partir de histórias eróticas, se faziam os mais virulentos ataques contra aristocracia e a rainha Maria Antonieta.

Por essa proeminência da pornografia explicitamente política, Lynn Hunt defende que a Revolução mudou a história da pornografia, na França e no mundo ocidental.

“Em outros países, o espectro da Revolução Francesa, com sua ameaça de democratização, de mobilização política das massas e de desordem social, incentivou a regulamentação legal da pornografia como categoria distinta.” (Lynn Hunt, A invenção da pornografia, p. 330).

Em outras palavras, a Revolução Francesa revelou o perigo da circulação de impressos e impulsionou os reformadores morais em uma cruzada para impedir que mulheres e crianças tivessem acesso à literatura perigosa.

Mas a pornografia francesa durante e pós-revolução não se limitou à política. Após a fase conhecida como Terror, os pornógrafos franceses passaram a se dedicar ao prazer sexual como um fim em si mesmo.

“Essa mudança assinalou o início da pornografia verdadeiramente moderna: produção em massa de textos ou imagens dedicadas à descrição explícita dos órgãos ou das atividades sexuais, com o único propósito de produzir excitação sexual” (Lynn Hunt, A invenção da pornografia, p. 333).

Enquanto a pornografia política tornou-se cada vez menos significativa no fim do séc. XVIII, a pornografia apolítica ressuscitou junto com o romance. Entre as novelas pornográficas que surgiram nessa época estão: Aline e Valcour, A filosofia na alcova e Justine, de Sade, assim como Anti-justine, de Restif de la Bretonne, em réplica a Sade.

De acordo com Lynn, inspirado pela ideologia materialista, Sade levou as possibilidades subversivas da pornografia ao extremo. Atacando todos os aspectos da moralidade convencional, ele enfraqueceu os usos objetivos da pornografia.

Seu trabalho não foi compreendido como crítica ao sistema moral do Antigo Regime, mas como ataque à própria moralidade. Por esse motivo, seus livros foram proibidos e apreendidos também nos governos republicano e napoleônico.

Na Inglaterra, o gênero pornográfico moderno se estabeleceu com Memórias de uma mulher do prazer(1748 e 1949), de John Cleland, que popularmente ficou conhecido como Fanny Hill. Sem objetivos políticos aparentes e com a intenção de excitar o leitor, o texto de Cleland se distinguiu da maior parte dos textos eróticos publicados na Inglaterra até o final do séc. XVIII.

De acordo com Randolph Trimbach, Fanny Hill pode ser vista como parte integrante da denominada religião da libertinagem. “Em contraste com o cristianismo ortodoxo, pode ser definida corno uma religião segundo a qual a experiência sexual era fundamental para a vida humana, e o desejo e o prazer sexuais eram bons e naturais” (Trimbach, A invenção da pornografia, p. 274).

Na primeira metade do séc. XVIII, o comportamento sexual e os papéis feminino e masculino se transformavam em virtude do Iluminismo e, consequentemente, do nascimento da cultura moderna no Ocidente. A condição das mulheres foi modificada por ideais como o casamento romântico, o companheirismo conjugal e o tratamento carinhoso das crianças (Trimbach, A invenção da pornografia).

Mas o comportamento dos homens também foi modificado por um novo padrão de relações sexuais. Até aquele século, um homem adulto se relacionava com mulheres e com adolescentes do sexo masculino, que culturalmente representavam um estado intermediário entre homem e mulher. Essas práticas sexuais não implicavam um estigma para os homens. É a partir de 1700 que o desejo sexual por mulheres passa a determinar a condição masculina.

“A sodomia foi estigmatizada como comportamento de uma minoria efeminada, não importando se o papel desempenhado era ativo ou passivo ou se o parceiro era adolescente ou adulto. Esses homens efeminados eram descritos coroo indivíduos que andavam, falavam e se vestiam como mulheres, além de exercerem ocupações femininas” (Trimbach, A invenção da pornografia, p. 277).

Nesse contexto, prostituta e sodomita passaram a representar os comportamentos que não eram apropriados para homens e mulheres.

Esse desenvolvimento na história dos gêneros e do desejo sexual fixou os limites da fantasia erótica e até ele estimulou o surgimento de um novo gênero pornográfico. Fanny Hill, que se distingue entre as obras da época por uma descrição insistente do ato sexual, celebra o prazer a excelência do prazer sexual fora do casamento ao mesmo tempo em que distingue a obra de Cleland das outras fantasias eróticas com prostitutas que apareceram na Inglaterra na Restauração (1660 – 1688).

Isto porque, a despeito do realismo narrativo, Fanny não é uma representação realista da vida de uma prostituta: ela não engravida, evita a doença e a embriaguez, e se casa por amor com seu primeiro cliente. Esta romantização da prostituta, que apresenta o prazer em ambiente seguro e domesticado, veio às custas de um papel mais passivo desempenhado pelas mulheres.

Outro aspecto a se considerar é que a idealização do prazer sexual em Cleland mesmo afrontando o sexo matrimonial, circunscrevia-se às estruturas do amor romântico e da reprovação da sodomia.

10 clássicos da literatura erótica (e provavelmente alguns dos melhores livros eróticos que você vai ler)

Nesta breve contextualização da história da literatura erótica moderna, embasada em grande parte no livro A invenção da pornografia: obscenidade e as origens da modernidade 1500 – 1800 organizado pela historiadora Lynn Hunt, já pudemos antecipar alguns dos livros que normalmente aparecem nas listas de clássicos da literatura erótica. Além disso outras obras, inclusive do séc. XIX e XX, se tornaram imperdíveis para os fãs do gênero e também são considerados clássicos:

Diálogo das prostitutas: Este livro, assim como a outra obra de Pietro Aretino, Sonetos Luxuriosos, é importante para os fãs de literatura erótica que querem conhecer as raízes do gênero como consumimos hoje. O livro do pai da pornografia ocidental é engraçado e surpreendente, provando que o erotismo do séc. XVI deixaria muitos dos pornógrafos de hoje corados. É um dos meus preferidos!

Teresa filósofa: Este livro, cuja autoria é atribuída ao Marquês D’Argens, é mais um livro que situa muito bem o erotismo ocidental e sua relação com a política. É o livro ideal para quem quer ter um panorama da libertinagem e de outros ideais pré-revolucionários em circulação na França.

Fanny Hill ou Memórias de uma mulher de prazer: Clássico inglês da literatura erótica moderna, o livro de Cleland, como vimos acima, é um retrato de um novo comportamento sexual e do nascimento da cultura moderna ocidental com seus papéis de feminino e masculino. No livro, por meio de cartas, Fanny conta a uma amiga todas as suas aventuras como garota de programa. Quando li o livro, algo que me marcou foram as descrições dos órgãos sexuais masculinos, bem exageradas e elogiosas, algo que passou a ser constante no erotismo que surgiu a partir daí.

Os 120 dias de Sodoma: Principal obra de Sade e, segundo estudiosos, o mais conhecido e inigualável registro da literatura pornográfica. Neste romance escrito em 1785, quando o marquês estava preso na Bastilha, quatro amigos se isolam em um castelo na Floresta Negra para ouvir de quatro alcoviteiras histórias de sua vida nos bordéis e as taras de seus clientes. Para encenarem esta experiência sadomasoquista da qual ninguém sairá imune, os libertinos contam com as esposas, filhas e um séquito de jovens, todos obrigados a se submeter às paixões ali descritas.

As relações perigosas: Apesar de não aparecer nessa breve contextualização, o livro de Choderlos de Laclos (1782) também retrata a degradação da nobreza francesa. No romance, durante alguns meses, um grupo peculiar da nobreza francesa troca cartas secretamente. No centro da intriga está o libertino visconde de Valmont, que tenta conquistar a presidenta de Tourvel, e a dissimulada marquesa de Merteuil, suposta confidente da jovem Cécile, a quem ela tenta convencer a se entregar a outro homem antes de se casar. A história de sedução, ciúmes e vingança inspirou muitas adaptações para o teatro e para o cinema.

A vênus das peles: Se Sade emprestou seu nome ao sadismo, o masoquismo, por sua vez, deriva do autor deste livro, Sacher-Masoch. Publicado em 1870, o romance é inspirado em experiência autobiográficas do autor. Nele, Severin von Kusiemski, um jovem de origem nobre, está apaixonado por Vanda von Dunaiév. Os dois trocam ideias sobre a natureza feminina, sobre as relações amorosas, sobre convenções da sociedade e sobre a possibilidade de felicidade numa relação duradoura a dois. Mas, diante da atração que experimentam, tudo isso será apenas um preâmbulo para uma aventura sexual de dominação e submissão.

História do Olho: Este é um dos meus livros eróticos preferidos! Apesar de achar Aretino muito divertido, aqui a relação com o erotismo é completamente diferente. Isso se deve, provavelmente ao fato de George Bataille fazer parte do surrealismo francês. Apesar de ser um dos meus queridinhos, não consigo explicar A História do Olho (1928). Mas vale conferir um trechinho da sinopse: “Chocante e sacrílega, esta novela é a expressão máxima da obsessão do autor pela proximidade entre sexo, violência e morte, e sua dimensão filosófica se depreende do exercício ilimitado que Bataille faz de tal relação”.

Delta de vênus: Ainda que as prostitutas reinem entre os personagens eróticos, nem sempre encontramos mulheres desempenhando o papel de autoria nos livros considerados clássicos. A francesa Anaïs Nin talvez seja a mais célebre do gênero. Delta de Vênus (1977) é um livro de contos encomendados, que talvez causem estranhamentos a mulheres que esperam uma representação sexual mais feminista, mas não deixa de abrir espaço para se pensar o desejo feminino.

História de O: Se o assunto são autoras de romances eróticos clássicos, outro nome que não pode faltar é Pauline Réage (pseudônimo de Anne Desclos). Conta-se que a jornalista e editora francesa escreveu o livro em 1954 como uma aposta de que uma mulher também conseguiria escrever um livro erótico obsceno. O livro conta a experiência da fotógrafa bem-sucedida “O” em uma jornada de transformação em objeto sexual. Uma obra chocante para quem está acostumado com um jogo de dominação romantizada ao estilo Cinquenta tons de cinza.

Lolita: O romance de Vladimir Nabokov, datado de 1955, é outra inclusão praticamente obrigatória em uma lista de clássicas de literatura erótica. Talvez pelas diversas adaptações da história para filmes, algumas pessoas imaginam que Lolita romantiza a pedofilia, mas, pelo contrário, Nabokov nos apresenta um narrador culpado e condenado. Diferente de todos os outros livros dessa lista em seu estilo, Lolita não apresenta cenas sexuais explícitas, sua força está na originalidade da abordagem da perversão do seu narrador. Deu pra perceber que eu gosto dele, né?

Muitos outros títulos também são citados em listas e você pode consultar algumas delas nas referências. Minha escolha se baseou no que eu estou mais familiarizada e/ou sei que é incontornável para quem quer ter um bom panorama do gênero. Em breve pretendo fazer novas listas com livros mais contemporâneos e também com livros brasileiros.

Ah, se quiser fazer uma maratona de leitura desses livros clássicos, acredito que praticamente todos foram comentados pela Lívia Furtado e Isa Sinay no falecido canal Clube do livro erótico. Se estiver interessado em livros mais contemporâneos, também pode dar uma olhada no meu Clube de Literatura Erótica.

Como é a representação feminina na literatura erótica?

“A história da pornografia identifica atitudes variáveis em relação aos corpos masculinos e femininos, às práticas sexuais e a suas respectivas representações”, Lynn Hunt.

Quando comecei a escrever esse artigo, não imaginava que ficaria tão extenso e ainda com tantas possibilidades de complementação. Desde o início queria falar sobre a mulher nesse gênero literário, mas provavelmente precisarei ir aprofundando essa discussão aos poucos.

O que podemos revisar até agora é que: 1) A prostituta é a principal representação feminina na literatura, mas para alguns autores ela nem representaria realmente a mulher, mas um terceiro sexo; 2) Talvez como consequência dessa predominância das prostitutas, muitos livros eróticos têm uma mulher como narradora, geralmente contando experiências para alguém, seja em diálogo, cartas ou diários.

Eu acho esse aspecto particularmente curioso porque muitos autores (homens) utilizaram esse recurso ficcionalmente. Já autoras, quando também recorrem ao mesmo estilo, geralmente acabam associadas às obras como um relato autobiográfico.

Como uma leitora entusiasta do gênero, desenvolvi meu primeiro romance, Digo te amo pra todos que me fodem bem, também como um relato de uma jovem de 27 anos. Na época da construção da história, me interessava pensar uma mulher “real”, com e sem desejo sexual, querendo transar bem, mas nem sempre disposta. Por essa tensão e contradição em relação ao desejo, até hoje questiono se posso incluir meu livro na estante de eróticos.

Como vimos, o erotismo é marcado por estar sempre desafiando a moral vigente, é um gênero da subversão. Atualmente, quando vivemos mais o imperativo da potência (Just do it) que do interdito, uma aproximação para o erótico estaria mais na recusa do sexo ou no retorno a sua materialidade física?

Outras referências:

Blog Querido Clássico

14 Livros degenarados – Cia das Letras

Revista Bula – Melhores livros eróticos

Revista Azmina – Livros eróticos feministas

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