É estranho fugir apertando o abraço ao redor de um corpo. Mas é o que a gente faz.

Existe essa cena, esse recorte. Um gif da memória. Há alguns meses começou a aparecer. De preferência em domingos ou em horas da madrugada em que ainda não me dou o trabalho de nomear um dia da semana. Deve ter mal cinco segundos de duração. E ainda que eu possa rever todo o filme que vem antes e depois da cena, minha cabeça escolhe repetir em loop os mesmos cinco segundos.
Apareceu a primeira vez como algo que eu finalmente podia entender. Não sei o que desencadeou as ligações nervosas que me fizeram recortar cinco segundos de uma tarde de 2015 e trazer para cá. Como se coubesse ainda, em qualquer lugar.
Nesses cinco segundos, tudo o que vejo sou eu, levantando os olhos no mesmo instante em que ele. Eu vejo de fora, como se tivesse visto assim. Mas foi de outro lugar. O gif é só o encontro dos olhares e uma dor. Não, ainda não sei se ela está lá. É só o encontro e um “oh”, um clique. Na verdade, é só o encontro e a fuga. É estranho fugir apertando o abraço ao redor de um corpo. Mas é o que a gente faz.
Eu sei o que não tem no gif. Não dá para ver que estou nua na cama, que acabamos de transar. Apenas algo que fazemos para matar as horas em um domingo, para justificar estarmos no mesmo lugar. Até esse sexo, o automático da tarde, ele me abraça e escorrega a mão para minha calcinha, é bom. Sei que penso isso antes do olhar. Sei que tenho pensado isso naquelas horas que matamos juntos. Que foi legal de primeira, mas tem ficado muito bom. Que antes demorava mais para eu gozar com a mão dele. Eu me recupero um pouco da preguiça pós-orgasmo, me afasto do peito dele, para erguer a cabeça e olhá-lo. Não sei por que decido que quero vê-lo. Só sei que faço. E no mesmo instante ele também inclina a cabeça e me olha de volta. Dá tempo de ler o que ele pensa, dá tempo de ver que ele também flagra meu pensamento. Dá tempo de transbordar um pouco. Desviamos o olhar rapidamente. Ele me aperta mais no abraço, eu me afundo mais no peito dele e respiro.
Esse é o contexto do gif da memória. E faria muito mais sentido ter percebido, naquela tarde de 2015, que eu estava apaixonada. E ele também. Que aquele era um momento de revelação. Devo ter percebido, na verdade. Mas era uma constatação que não cabia ali e nunca coube em outro tempo. Não foi a última vez que nos vimos, mas foi a última em que poderia ter feito sentido.
Nunca fez. Então o gif é só isso. É uma cena em repetição que às vezes penso em escrever. Que eu penso em mudar de lugar e de tempo. Jogar para o futuro, encaixar no meu desejo de encontrar de novo, outro olhar. É uma cena que não tenho coragem de completar. Porque não consigo dar outro nome para mim, não consigo dar um nome para ele, ou fazer de conta que um dia poderia ser alguém, outra.
Se conseguisse narrar essa cena, talvez eu pudesse fingir que era uma história de amor. Um conto de sexo casual entre duas pessoas feridas que não querem se envolver, mas acabam se apaixonando. Duas pessoas que não éramos. Eu me tornei?
Não faz sentido tentar narrar essa história. Até agora, o gif da memória para antes que eu consiga pensar o que poderia ter sido. A cena para e se repete. Volta para o olhar, desvia, retorna. Por que não importa o que vem depois. Nunca importou. Seis anos não foi espaço para um arrependimento.
Quanto mais a cena se repete na memória, mais ela se transforma em algo que não posso entender. A repetição não é um acúmulo, é esvaziamento. Não há nada lá. Não há mais o que dizer ou ler no encontro de olhares. É só um movimento de cabeça. Levantar e abaixar. É só uma lembrança de que sentir, às vezes, não faz diferença. Na maior parte das vezes, não faz. E não importa.
Mas importava. Talvez ainda importe. Na próxima repetição, no próximo encontro, eu quebro a cena. Prometo.